SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E REGIÃO – ANO 34



O autismo no feminino

17/04/2021 - por Maria Betânia dos Santos Chaves

Abril é o mês oficial da conscientização do autismo – abril azul. Como vimos com o artigo da edição anterior, escrito pela psicóloga Alessandra Pimenta, um dos problemas que pessoas com o TEA (Transtorno do Espectro Autista) enfrentam é a dificuldade de comunicação.


Ora, se para nós, mulheres típicas, com “facilidade” de comunicação, a vida não é fácil por conta do machismo, já imaginou como é para a mulher autista, que é tida como minoria também dentro do espectro?


Inicialmente as mulheres no espectro tendem a fazer “mascaramento” ou camuflagem; as meninas de forma geral são educadas para atender aos padrões da sociedade e, com toda essa pressão de padronização, as meninas atípicas tentam esconder as estereotipias. Ou seja, isso dificulta o diagnóstico das meninas, podendo ser, ou não, o fator que levou estatísticas a apontarem meninos como sendo mais suscetíveis a ter autismo do que as meninas.


Assuntos que envolvem mulheres, o feminino, geralmente são tabus e, pensem comigo, o autismo em si ainda é visto como tabu por alguns. Se para homens autistas é difícil procurar ajuda ou falar de seus enfrentamentos, imaginem para mulheres com o espectro? Imaginem como é difícil para elas, que já são rotuladas de diversas formas somente por serem mulheres...


Em pesquisas é fácil observar que as meninas em condições severas do TEA eram diagnosticadas na infância, as com alta funcionalidade só vieram a ter diagnósticos na fase adulta. Grande parte dessas mulheres que tiveram disgnóstico tardio revelam que a falta do diagnóstico precoce provocou um grande sofrimento durante a vida.


As relações são mais complicadas pela falta de habilidade social, elas tentam imitar as outras mulheres para se manter dentro da “caixa” em que a sociedade diz como a mulher deve agir, ser e pensar. A mulher neuroatípica com dificuldade de verbalização fica mais suscetível a relações abusivas e abusos sexuais, ela encontra dificuldade em contar e para entender que aquele comportamento é errado.


Algumas encontram problemas no trabalho, pelo fato de ter comportamento diferente e, mais uma vez, precisam se esconder atrás da máscara social que elas se colocam para poder ter uma vida mais “normal”.


E se houver assédio no trabalho, como acontece com muitas de nós? A mulher neuroatípica, com dificuldade de verbalização, vai sofrer de forma intensa, ninguém vai perceber e identificar o abuso, e essa mulher talvez peça demissão do trabalho, e vão culpar sua condição.


Fala-se muito sobre as diferenças entre homens e mulheres nesta condição, existem comparações com relação às características do gênero. Na atual conjuntura, os homens são vistos com altas habilidades e superdotação, enquanto as mulheres não possuem para a sociedade algo notório, pelo fato de estar no espectro.
Quando esta mulher está dentro do espectro, mas é considerada nível 1, as pessoas costumam questionar comportamentos pelo fato de o autismo não ter característica na aparência física, como usar assento preferencial que é de direito, vagas preferenciais para estacionar, filas prioritárias de banco. Por toda funcionalidade da mulher, que teve que se enquadrar dentro dos padrões, as pessoas não entendem, e referem-se ao autismo leve como se nada fosse. Mas a pergunta é: essa leveza se aplica à mulher nesta condição? A quem se aplica?


Não existe nada leve para a mulher atípica, além dos problemas sociais, laborais, acadêmicos e capacitismo, existe ainda a maternidade para esta mulher. Quando ela se torna mãe, ela é muito mais cobrada e questionada do que o homem. A paternidade para o homem neuroatípico é como a do homem típico, se ele encontra dificuldades tem alguém para apoiar, ou alguém para assumir esta responsabilidade; mas e quando é a mulher atípica?
Geralmente o diagnóstico tardio vai atrapalhar muito a vida dessa mulher. Vai ser indagada a forma dela ser e de cuidar dos filhos, a capacidade dela vai estar em jogo, enquanto que a capacidade masculina não será sequer discutida.
As mulheres no espectro precisam da voz do feminismo; elas são silenciadas pelas suas características e estereotipias. Não podemos deixá-las expostas dessa forma, sem uma ferramenta de defesa. O patriarcado as engole vorazmente; nós, mulheres típicas, precisamos usar nossas ferramentas para apoiá-las, temos de ouvi-las e inseri-las cada vez mais ao movimento.

Por Maria Betânia dos Santos Chaves
e-mail: betaniaschaves@hotmail.com

Publicado originalmente na versão impressa de DEMOCRATA, edição 1662 de 10/4/2021 pág. 10 

Maria Betânia é bióloga, formada na FEUC e foi conselheira tutelar por mais de cinco anos em São José do Rio Pardo. Escreve sobre direitos humanos.

Mais artigos de Maria Betânia dos Santos Chaves

18/07/2021 - Paquera ou assédio?


12/07/2021 - História do Feminismo no Brasil A Quarta Onda


05/07/2021 - A história do feminismo no Brasil – Parte IV


26/06/2021 - História do feminismo no Brasil - Parte III


30/05/2021 - História do feminismo no Brasil - Parte I


30/05/2021 - A ditadura do corpo perfeito


22/05/2021 - Mulher, empodere-se!


13/05/2021 - A origem do Dia das Mães


13/05/2021 - Síndrome do desamparo aprendido


13/05/2021 - Dia Nacional da Mulher























Jornal Democrata
São José do Rio Pardo e Região
Whats 19 3608-5040
Tel.: 19 3608-5040

Siga-nos nas Redes Sociais

contato@jornaldemocrata.com.br