O professor Márcio estava dando uma de suas famosas aulas de português, quando adentra o aluno Álvaro, sempre atrasado, com um gravador às mãos. Pede licença ao emérito magíster e coloca o mesmo em cima de sua mesa. E impenitente, pergunta-lhe se ao invés de literatura, desse-lhes uma aula de Teologia.
O irônico mestre deu aquela risadinha gostosa e satirizou:
— Olho a máquina à minha frente e vejo que é um gravador. E fico pensando: esse objeto estranho colocado entre duas ou mais pessoas, supostamente amigas, não deixa de ser um ouvido artificial! O que vocês acham, meus preclaros alunos?
Os alunos perplexos com a acuidade do mestre, nada respondem. E o inspirado instrutor emenda: O que foi que Jesus nos recomenda:" Tendes ouvido de ouvir e olhos de ver".
Faz-se necessário que prestemos menos atenção às coisas materiais, pois em relação às espirituais, o homem está devendo o seu uso certo. O ser humano só quer angariar e abusar.
O que o Mestre aconselha é o saber usar. Tudo na vida é bom senso e equilíbrio. Sem os mesmos o homem poderá desencarnar a partir de uma simples trombose sanguínea que lhe dará uma desagradável sensação do outro lado da vida. E para a qual ele ainda não está preparado...Ele não soube ouvir o Senhor e também não O sabe ver. E aí , como é que fica?
Um outro aluno pede o uso da palavra e queixa-se do choque entre o que a sociedade espera dele e o que ele quer para si próprio.
E o bom professor responde: "Vemos que há necessidade de se ouvir mais, principalmente os outros. Você sabe algo sobre a tensão dos opostos?
Enquanto o aluno vacilava, o nobre professor afirmava: "A vida é uma série de puxões para frente e para trás. Queremos fazer uma coisa, mas somos forçados a fazer outra. Algumas coisas nos machucam, apesar de sabermos que não deviam. Aceitamos certas coisas como inquestionáveis mesmo sabendo que não devemos aceitar nada como absoluto. Só o Mestre Jesus é absoluto."
E vendo a classe abobalhada com sua esperteza mental, anui: "Entenderam o que corresponde essa tensão dos opostos? Ela é como o estiramento de uma fita de borracha. A maioria vive mais ou menos no meio".
— Parece luta livre — exclamam os alunos.
— Luta livre — o professor repete e ironiza — É, pode-se definir a vida desta adequada forma.
— E que lado vence? — perguntam os curiosos estudantes.
— Que lado vence? — Ele sorri com aquela ironia de quem sabe tudo e os alunos nada sabem e preceitua: "O amor vence. Sempre".
Olha o inditoso aluno em pé e meio sem-graça diante dele e do gravador e pondera:
— Vá sentar-se, senhor Álvaro. Na próxima vez, não seja tão impertinente. E, por favor, leve esse ouvido artificial consigo! E não se esqueça de ouvir mais e falar menos, principalmente com as meninas lá atrás!