"E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade
vai pesar seu gênio
Encontra o mundo,
que ela encheu, vazio!"
(Augusto dos Anjos,
O fim das coisas)
Tremor. Medo. Terror.
Destruição. Mortes. Horror.
Cadáveres enchem as ruas.
Animais devoram humanas carnes cruas.
Mau cheiro. Ratos. Insetos. Decomposição.
Desespero. Choro e ranger de dentes. Morte de toda ilusão.
Anônimos sepultados em valas comuns. Violência. Barricada de corpos.
Ruínas ilhadas em um oceano de mortos.
Doações que não chegam. Inutilidade da retórica política. Impotência da humanidade.
No mundo todo desperta a antiga solidariedade...
Fome. Sede. Comida retida na burocracia. Demônios da imaginação assombrando indefesos cidadãos. Zumbis fabricados sem capacidade de ação. Fluxo e refluxo de energias destruidoras.
Heróis anônimos lutando contra o caos. Orgulho de ser brasileiro, de ver nosso país de mãos estendidas para ajudar o irmãos!
Haiti - tragédia a sinalizar uma Nova Era. Fundo do poço. A civilização nos condena... Ou evoluímos, ou desapareceremos.
Eis diante de nós outra vez a Esfinge do mistério universal. Toda a grandeza da criação humana destruída em segundos. Um povo já sofrido submetido ao caos total. O que explica isso? Qual a justificativa? Diante de um mundo conectado e estupefato, chora a fanfarra triunfal da Morte... O que vale, diante desse cataclismo, toda adoração aos bens materiais, todo hedonismo, todas as diferenças de títulos e classes sociais, quimeras inventadas por mentes megalomaníacas que brotam no meio da humanidade que precisa se harmonizar para existir?
Vemos desfilar na mídia, até a nossa exaustão, a multidão dos desgraçados... Como saber quem entrará nessa fila infeliz nos próximos anos?
Observamos a condição desprezível de uma criação ébria de fumo, álcool e ópio, zumbizagueando sem rumo, em busca de uma luz. O filósofo da modernidade não lhe pode apontar a saída, porque vê em proporções enormes aquilo que é composto de pequenas partes; constrói corpos gigantescos e disformes com o que é apenas uma parcela do Todo.
Ouço os versos de Augusto dos Anjos a Nietszche: "Desconheceste Deus no vidro do astrolábio/ e quando a Ciência vã te proclamava sábio,/ a tua consrução quebrou-se de repente!" O homem se esqueceu de que é uma criatura, e não o Criador. Menosprezou as forças da natureza e transgrediu todas as regras necessárias à harmonia universal, como se não houvesse conseqüências para tal infração. E estamos apenas no início de uma reação em cadeia!
Como superar a derrocada de uma civilização em que se acreditava? Como esquecer a visão dos semelhantes em putrefação diante dos olhos que reconhecem o mesmo fim? Como entender a esteira da morte igualitária, que desconsidera todas as diferenças sociais arquitetadas pelos homens durante todos estes séculos? Como compreender a responsabilidade dos colonizadores europeus que exploraram ao máximos as nações colonizadas, para depois abandoná-las à própria sorte? Como compreender os movimentos do mercado financeiro, monstro devorador de vidas, desprovido de consciência e de remorso? Como voltar a ser HUMANO?!
Como dormir ou descansar em meio a uma dança macabra de tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros girando ao redor? Como fechar os olhos sem se assombrar com pedaços de carne em decomposição e mãos descarnadas estiradas em pedido inútil de socorro?
Outra questão que não se compreende: por que esperar a chegada de uma pessoa tão especial como a Dra. Zilda Arns para que a terra resolva devorá-la nessa grande voragem? Seria a vida dela destinada ao grande sacrifício necessário àquela nação? Seria seu espírito o lenitivo para tantas energias negativas acumuladas pela dor eterna que aquele povo arrasta pelos sucessivos infortúnios? Quem pode afirmar ou negar esta hipótese? Que potencial destrutivo a manipulação de ocultas energias cósmicas pode acumular?
Vejo a resposta somente nesta grande reflexão do poeta paraibano, um dos artistas que mais souberam compreender a dor da existência humana: "Homem! Por mais que a Ideia desintegres, / Nessas perquirições que não têm pausa, / jamais, magro Homem, saberás a causa/ de todos os fenômenos [...]!" (Augusto dos Anjos, As cismas do Destino). Concordo com Augusto, tudo isso é resultado da luta do orgulho humano contra as forças inorgânicas da terra.
De qualquer forma, o terremoto no Haiti é um marco na história da humanidade, talvez o início de uma nova era, em que o homem seja obrigado a despertar e perceber que evoluir tem um outro sentido, assim como civilizar-se. Voltaremos, então, aos pensadores e grandes escritores do início do século XX, esquecidos ou censurados. A evolução e a civilização, para eles, era no sentido da união e da queda dos preconceitos inúteis e absurdos, assim como a superação da idéia de moral restrita ao corpo e ao uso que se faz dele. Novidade, nenhuma, pois até mesmo os gregos, os egípcios e outros povos antigos já haviam anunciado o caminho dessa evolução interior.
Utilizando aqui um esquema antigo de Nelly Novaes Coelho para explicar os movimentos literários, é possível perceber que etapas semelhantes foram traçadas pelo ser humano fora da ficção. Para Nelly, a humanidade partiu de um estado de equilíbrio entre Humanidade/Natureza/Deus e foi se afunilando até criar a noção de indivíduo. Não satisfeita, passou a restringir-se à valorização do "Eu", do "Ego" e do "Id". Se considerarmos o movimento em espiral defendido por Vico, só resta uma alternativa: a retomada da harmonia primitiva, ponto de partida dessa aventura exploratória do ser humano!
Para que isso seja feito com sucesso, no entanto, será necessário abrir mão de crenças impostas e arraigadas e orientar o ser humano para se integrar e reconhecer a grandeza e o poder da Mãe Terra e do feminino em geral, particularmente da mulher como geradora de vida, resgatando também o valor sagrado, mas livre de tabus e da questão de propriedade, da união sexual, separadamente da união por consórcio ou interesses afins. Estará a humanidade preparada para isso?
Chegamos ao tempo em que "a verdade virá das pedras mortas/ E o homem compreenderá todas as portas/ que ele ainda em de abrir para o Infinito." (Augusto dos Anjos, Última Visio). Teremos coragem para dar o salto sobre o abismo ou escolheremos a precipitação cega no vazio, por medo da mudança?
Talvez, em meio a toda essa ruína deletéria e infeliz, esteja acontecendo a gestação do grande feto que virá substituir a espécie humana!