São José do Rio Pardo, quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Ano 22
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Peixes, certezas e nada mais
3/2/2010 11:33:24

Era apenas mais um dia frio. Final de outono, início de inverno, um dia seco, cinza, com cara de poucos amigos, com aquele vento que cortava a pele, com aquele ar que gelava os pulmões. Dia com aparência de roupa de inverno cheia de bolinhas, dia com cheiro de naftalina, dia em que os casacos se apresentavam ao sol, surpresos, depois de longos meses esquecidos.

Era apenas um dia frio, contudo, o apenas nunca se resume a mesmice quando se trata de andar de ônibus, e neste dia, também não seria diferente.

Caminhei apressada naquela manhã, não por estar atrasada, mas por sentir que se demorasse mais alguns minutos naquele frio congelaria. Cheguei cedo no terminal de ônibus, garanti meu lugar e viajei sentada. Acomodei-me da melhor maneira possível, coloquei os fones de ouvido, as luvas, arrumei o cachecol e me preparei para observar a paisagem com sua temperatura de aproximadamente 5 °C.

Quase na metade do percurso, entrou no ônibus um homem, de seus 40 e poucos anos, moreno, de barba, bem agasalhado, com luvas, gorro, cachecol, moletom e uma blusa de lã, cheia de bolinhas. Trazia nas mãos duas sacolas de plástico, um meio sorriso leve no rosto, um ar de satisfação. Sentou-se ao meu lado e ali ficou, imóvel, por quase 30 segundos.

Em seguida ele me convidou a escrever esta história. Não, ele não me pediu para falar sobre sua vida, nem mesmo imagina que escrevo textos deste tipo, nem sequer sabe quem sou eu. O convite surgiu dos seus atos, seria inconcebível não eternizar em palavras as cenas que se seguiram.

Com muito cuidado ele abriu uma das sacolas e de dentro dela tirou um saco plástico, de tamanho médio, bem lacrado, cheio de água, com três estranhos visitantes, três pequenos peixes agitavam-se em seu interior a cada movimento feito pelo homem. Olhei de relance e meus olhos, por um instante negaram-se a acreditar, olhei novamente e então vi, sim eram mesmo peixes, um colorido e dois pintados. Ele viu quando paralisei os olhos no saco plástico e foi ali que começou nosso diálogo mudo.

Ele não disse uma palavra. Só olhou para mim, olhou para o saco, o girou por inteiro, como que para mostrar cada detalhe, e o retornou na sacola. Tirou de lá, então, outra coisa, colorida, quase brilhante, ergueu o material por um instante e o deixou ali, aguardando que novamente eu desviasse os olhos da janela e mantivesse o diálogo mudo, olhei, e vi um saco de pedras coloridas para aquário. A certeza do reconhecimento do produto, o fez retorná-lo na sacola plástica.

Recolheu a sacola com os peixes e as pedras no colo e levantou a outra sacola, de dentro dela tirou duas escovas de dente. Aguardou enquanto eu olhava o produto e em seguida olhou para mim, abriu um largo sorriso e balbuciou:

- São para o aquário.

Eu não disse nada, só sorri. Não tive coragem de continuar este diálogo que agora, quase mudo, registrava uma única certeza: ele tinha um aquário.

O homem desceu no ponto seguinte, com o mesmo ar de satisfação no rosto, levou com cuidado as duas sacolas e seguiu seu caminho e eu fiquei ali, imaginando esta história e pensando no que aquele aquário representaria para aquele homem.

Claro que poderia ter-lhe feito esta pergunta enquanto estava ali do meu lado, mas com certeza o momento perderia sua cor. Invadir suas certezas, sabendo o porquê do aquário e qual seu real significado, sabendo o porquê de três peixes e não cinco ou dois, saber o porquê das pedras coloridas e não neutras, seria torná-lo comum. Preferi, então, imaginar que o aquário fosse um sonho agora realizado, o pedido de um filho amado, uma surpresa para a esposa, ou simplesmente um enfeite para iluminar a sala junto com os primeiros raios de sol.

Creio que aquele homem estava ansioso para falar para alguém de todos esses porquês. Creio que sua euforia o fez quebrar o silêncio daquele diálogo, posso inclusive apostar que ele precisava mostrar a alguém aquela conquista, afirmar sua escolha, garantir aquela certeza, contudo, não me caberia essa honra, não a mim que nem o conhecia, que não sabia de seus interesses e sonhos e que provavelmente banalizaria sua maior certeza como algo, simples, ou cotidiano.

Pode parecer bobagem, mas creio que demorará para uma cena como esta se repetir, digo ainda, que por mais que detalhe cada instante, nunca poderia descrever-lhes aquele meio sorriso no rosto, aquele ar de satisfação, aquela certeza.

Uma certeza que contagiava. Uma certeza de que tinha tomado a melhor decisão do mundo, de que tinha feito o melhor. Uma certeza de trabalho cumprido, a satisfação de um novo compromisso assumido por vontade e não por mera obrigação.

Assim é que gostaria que fossem todos meus dias, repletos destas certezas. Repletos daquele ar de satisfação, daquele meio sorriso e de muita água cristalina. Isentos de palpites e imposições. Dias frios, mas transparentes, longos e satisfeitos. Dias frios, com peixes, certezas e nada mais.

 

Taline Libânio
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