São José do Rio Pardo, sexta-feira, 10 de setembro de 2010
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Canalizador para reparar autoclisma de retrete
24/2/2010 14:30:04

Uma vez, o escritor Bernard Shaw falou o seguinte sobre a Inglaterra e os Estados Unidos - "são dois países separados pela mesma língua".
Isto cabe muito bem em relação ao Brasil e Portugal. Os portugueses parece que falam outro idioma. Depois eu vou traduzir a frase acima, que é o título do meu texto.
O que é canalizador? Retrete? Autoclisma?!!! O único termo mais fácil de entender é o verbo reparar.
Certa vez, um brasileiro vivendo em Portugal contou que sua doméstica havia deixado sobre a tampa da privada uns legumes. O certo é que ele havia pedido a ela que os deixasse sobre a pia.
Não sabia que pia é, muitas vezes, sinônimo de privada ou vaso sanitário.
Dizem que fica difícil até acompanhar um noticiário de tevê ou a narração de um jogo de futebol.
Eis uma manchete de um jornal lusitano:  "Joaquim morreu ao tomar banho, não havia nenhum banheiro por perto". Dá pra entender?! Por que nenhum banheiro por perto?! Parece sem pé nem cabeça.
Na verdade, o cara havia morrido afogado, estava na praia. Banheiro é como eles chamam o salva-vidas.
Lá banheiro é quarto de banhos.
Alguns nomes de cidades são aportuguesados, como por exemplo: Estugarda (Stuttgart), Francoforte (Frankfurt) e Gronelândia (Groenlândia).
Eles não falam palestino, mas palestinense.
Outros nomes: Moscovo, Bona, Amesterdão. Não escrevemos assim por aqui.
Alguém soltou uma bomba no Harlem, os lusitanos falariam assim: houve um atentado bombista no Harlemo.
Revolta estudantil em Cambridge - Sarilho de liceus na Cantabrígia.
Em Portugal não se compram jornais no jornaleiro. Este é um operário comum, que trabalha por jornada. O vendedor de jornais é o ardinas.
Lá os filmes não são dublados, são dobrados.
Se diz Rio Tamisa, deserto do Sara, Florida, não Flórida.
Jerry Lewis é O Estoira-Vergas, o Gordo e o Magro são O Bucha e o Estica; Os Três Patetas são Os Três Estarolas; e os Irmãos Marx, os Quatro Aldrabões.
Aldrabões?!
Um homem distinto, bem-vestido é bizarro, uma zorra é uma coisa chata, monótona, "dar sopa" para alguém é não querer nada com esse alguém. Chamar uma pessoa de brejeira não é um elogio - é tachá-la de vagabunda.
Alguém poderia imaginar que muitos portugueses empregam adeus tanto para dar um adeus propriamente dito quanto para dizer olá?!
Um sanduíche de churrasquinho é um prego. Um pãozinho francês é uma carcaça. Se quiser um pão tipo bisnaga, peça um cacete.
Um par de tênis é um par de sapatilhas. Um esparadrapo é um penso. Modess são pensos higiênicos.
Uma drogaria é um lugar onde se vende toda espécie de material de limpeza, como baldes e vassouras, mas não remédios - estes só se encontram nas farmácias.
Um açougue é um talho. Uma livraria de sebo é um alfarrábio.
Um cafezinho é uma bica. Uma média é um galão. Um chope é uma imperial.
Eles chamam o mictório público de urinol, o que nós chamamos de urinol os portugueses dizem vaso de noite.
Fraldas são cuequinhas de bebé, cuecas são as calcinhas femininas. E as cuecas masculinas? As chamam de cuecas mesmo.
Chamam as crianças de miúdos.
Dar uma bronca não é "espinafrar" alguém, mas apenas dar um fora.
Quando a tevê portuguesa transmite qualquer coisa ao vivo, diz-se que é em direto; se não, é em diferido.
Não parece mesmo uma outra língua?! Quantos termos diferentes!
Os filmes deles quando vêm pra cá precisam ter legendas com adaptações para entendermos. Isto precisa acontecer também por causa do sotaque, que é complicado.
Minha correspondente lusitana chamada Sofia (já tive oportunidade de entrevistá-la, publiquei aqui no DEMOCRATA há um bom tempo atrás) não entende porque usamos legendas, eles não as usam nas telenovelas e filmes brasileiro.
Com relação a futebol, os craques não jogam de chuteiras, mas de botas, e não suam a camisa, mas a camisola. O gramado é o relvado, a bola é o esférico.
Quando um dos jogadores faz gol contra, comete um auto-golo, se se contunde, diz-se que se aleijou ou estatuou-se no relvado, às vezes o juiz irradia um deles da partida, ou seja, expulsa-o.
E, no intervalo, naturalmente, vão todos para o balneário - quer dizer, para o vestiário.
Quem entra numa farmácia para tomar uma injeção na nádega deve pedir para levar uma pina ao rabo. Não é brincadeira não, é assim mesmo!
Os miúdos (crianças) portugueses chupam rebuçados, no lugar de balas, gelados de palito em vez de picolés e chupa-chupas em vez de pirulitos.   
Lembro novamente Bernard Shaw - parafraseando - Brasil e Portugal  são mesmo dois países separados pela mesma língua.
Um dos brinquedos preferidos dos miúdos é brincar de coito, ou seja, de esconde-esconde.
Sobre as mulheres que fazem topless nas praias eles falam o seguinte: "elas andam pelas praias com as catarinas à vela".
Catarinas à vela?!!!
Mas, afinal de contas, o que significa o título deste meu texto? O coloquei de propósito para deixar o leitor curioso. Lá vai. Canalizador para reparar o autoclisma da retrete. É fácil, é o seguinte: encanador para consertar a descarga da privada.
Termino este meu artigo dizendo o seguinte: é interessante como tantas palavras mudaram de sentido ao cruzar o Atlântico nas caravelas cabralinas.
Podemos dizer que as que ficaram em Portugal em 1500 conservaram as acepções originais.
Na verdade, os dicionários de português produzidos no Brasil há séculos fazem de conta que existe uma férrea cadeia linguística unindo o Brasil, Portugal e a África. Será que existe mesmo? Claro que não, como qualquer brasileiro que viveu em Portugal pode atestar.
Outro dia mesmo, lendo uma revista editada em Portugal, (ótima revista, lembra muito a nossa VEJA) que me foi enviada pela Sofia, confesso que tive dificuldade em entender certos trechos.

 

Fabiano Possebon
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