Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Quando fala, Deus se dirige a pessoas concretas: fala a Abraão, a Moisés, a Davi, a Salomão, a Isaias, “aos nossos pais” (Hb 1, 1). Antes, não se via o rosto de Deus: ele se manifestava numa sarça ardente, numa nuvem ou numa coluna de fogo. “Ultimamente nos falou por seu Filho...” (Hb 1, 2). Em Jesus Cristo, Deus tem um rosto que sorri, uma mão que acaricia, um olhar que envolve e braços que se estendem para abraçar. O Concílio Vaticano II (1962-1965) refere-se a isso com palavras sublimes: “Jesus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano” (GS 22).
Na linha da pedagogia do Antigo Testamento, quando Jesus abria a boca e ensinava, dirigia-se a pessoas concretas, com nome, história, problemas etc. Por isso contava parábolas ou dava exemplos que cada um de seus ouvintes entendia: falava de sementes e pérolas, de ovelhas e moedas, de pães e pastores...
O relacionamento que tinha com os homens e as mulheres, as crianças e os jovens de seu tempo, hoje quer ter com você, com a jovem que será obrigada a passar o próximo domingo no caixa do supermercado, com o professor universitário que corrige uma prova, com a mãe de família que prepara o almoço para seus filhos...
Ao procurar manter um relacionamento pessoal com cada irmão ou irmã que conquistou com seu sangue, Jesus quer que todos passem pela experiência vivida por Paulo, assim resumida: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20)
Quando alguém – por exemplo: um político, um comerciante, um parente seu, um vizinho, um agricultor... – fala com você, fala a partir do mundo em que vive. Jesus Cristo, quando lhe fala, não parte do mundo dele. Parte do mundo em que você vive. Ao olhar em sua direção, ele vê em você o Pai, já que você foi criado à imagem e semelhança de Deus. Esse rosto do Pai poderia estar perfeito ou alegre, machucado ou triste, abatido ou preocupado – e será sempre o rosto do Pai querido...
Uma das parábolas de Jesus, a do Filho Pródigo, destaca a maneira como Jesus acolhe as pessoas. O filho que pediu ao Pai a partilha dos bens e partiu para longe, após perder tudo e ficar na miséria teve consciência clara de sua indignidade. Ao pensar retornar para sua casa e tentar ser admitido com um mero empregado, chegou a preparar um discurso para o reencontro. O pai, que de longe o viu aproximar-se, correu ao seu encontro e o abraçou, não dando a mínima importância para as palavras que o filho havia decorado. O filho sabia que seu rosto estava machucado – e queria destacar isso. Para o pai, o que mais importava era o seu filho que estava ali, em seus braços. Ele se via no filho. O filho era parte dele, sua extensão. Como não amá-lo e perdoá-lo?
Jesus acolhe cada pessoa porque vê nela o rosto do Pai; mas também a acolhe porque sabe o preço que ela lhe custou – o seu sangue. Como, pois, resistir a quem abre os braços e lhe diz: “Vinde a mim, você que está cansado e carregado de fardos?...” (cf. MT 11, 28).
Gostei muito deste texto; transcrevi-o da revista Brasil Cristão, julho de 2010. É tão bom sentir a alegria de se saber acolhida por Deus, uma alegria que anima o coração e desperta cada vez mais o desejo de corresponder ao seu imenso amor. Nestes dois últimos meses a minha agenda tem estado lotadíssima e isto me agrada. Fico muito feliz por poder ainda participar da vida da família e da comunidade. Neste final de semana conto receber alguns familiares do marido da neta recém-casada e vários filhos e netos; hoje é o nosso dia de participar entre os patrocinadores da quermesse de Tapiratiba. Entretanto, quero prestar bem atenção para salvar os momentos de oração – que em vários dias ficaram prejudicados – e procurar honrar, com carinho e gratidão, o fato de que todos nós, também eu, fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Que Ele nos abençoe e seja louvado com muito amor.