São José do Rio Pardo, quarta-feira, 8 de setembro de 2010
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“Mudar e Vencer”
28/7/2010 13:34:48

No livro com esse título, o Dr. Paulo Gaudêncio mostra como as mudanças podem se tornar positivas, e o faz a partir de uma situação concreta, internado na UTI do Incor, recuperando-se de um infarto. Ali se dá o pontapé inicial dessa obra, que continua depois, no período de repouso em casa, como única atividade permitida pelo médico, relacionada à profissão:  escrever.  Ele passa, então, a abordar, pela visão do psiquiatra, o mecanismo desse processo de mudança e as reações possíveis do indivíduo que nele se encontra.

 

O MEDO DE MUDAR

 

Quem é que, estando confortável em um emprego ou em um relacionamento aceita de bom grado mudanças radicais? Não muitos. Eu diria que somente os que odeiam monotonia e adoram novidades, além de não temer riscos. E em todas as épocas são poucos.  Pierre Lévy,  em 1999,  a respeito das mudanças que a tecnologia trouxe ao ensino, explicou que 20% resistem a elas, 10% aderem no primeiro momento e o resto fica “em cima do muro”. Claro que não são exatamente estas as palavras que o escritor empregou, mas o significado é o mesmo. Mudar, portanto, à maioria causa medo ou até mesmo pânico.

Gaudêncio afirma a impossibilidade de mudarmos os outros, pois cada pessoa só pode mudar a si mesma, embora possamos servir de “espelho” à mudança de outros, ou seja, se alguém admirar o seu modo de ser – positivo ou negativo -, desejará ser como você, portanto passará a imitá-lo. O ser humano é extremamente mimético, afirma também René Girard.

O psiquiatra dá um exemplo bastante didático para o fator que desencadeia a mudança: um treinador de natação utilizava um método sui-generis para treinar a equipe de um país para as Olimpíadas: quando os nadadores estavam na piscina, soltava um tubarão na água... Quem fosse rápido, sairia salvo... Os mais lentos eram devorados. Bastante pertinente essa metáfora do “tubarão” como alavanca da mudança, pois atualmente ao indivíduo não é mais concedido nem tempo para pensar. Se demorar muito a decidir, vai “dançar”, seja profissionalmente ou nos relacionamentos pessoais. E na escola ainda aprendemos que “a pressa é inimiga da perfeição”!

O importante é que você só pode mudar a si mesmo, mas o outro é que irá formá-lo ou deformá-lo; reformá-lo ou transformá-lo. Nesse contexto, o papel do educador torna-se, inegavelmente, de máxima relevância.

E para mudar, onde buscamos novas referências?  O Dr. Paulo afirma que a pessoa mais importante de sua vida será seu modelo, é a quem você tentará imitar. Isto também traz uma série de implicações sobre as quais a sociedade não parece ter refletido muito... Se você tem filhos, certamente é o modelo deles. Já parou para pensar que é mais importante cuidar do modelo que tem sido do que tentar incutir nas crianças ou adolescentes  um modelo idealizado? Para o professor, vale o mesmo. Para respeitá-lo, o aluno precisa antes admirá-lo.

Tomo a liberdade de dar um exemplo aqui. Após uma vida toda no magistério sem nunca haver abandonado nenhuma turma, passei a lecionar na universidade, em vários cursos. Mas houve uma classe que me deu um trabalho tremendo, a de Administração. Isto já foi há alguns anos. Tentei de tudo durante um semestre. Dava a matéria, mas não conseguia conquistar a classe, e minha teoria, por experiência, é de que, se o professor não leva a classe se apaixonar pelo assunto, ela poderá até reter o conhecimento por um tempo, mas não aprenderá de verdade, ou seja, não haverá aquela interiorização necessária à verdadeira assimilação do assunto. No segundo semestre,  passei a bola para outro professor mais jovem e bem mais rígido do que eu e ele foi um sucesso! Então compreendi: o rapaz tinha tudo a ver com o perfil de administrador, por sua postura mais severa, mais exigente e impessoal,  enquanto eu utilizava o mesmo estilo com que trabalhava em Letras, curso de formação de professores e que trabalha com a sensibilidade da linguagem literária. Essa tese de Gaudêncio comprovou, para mim, que se o aluno não se identificar com o professor, não desejará segui-lo.

 

EMOÇÕES

E VALORES

 

Nossos valores dependerão sempre de nosso objeto primário de amor, explica Gaudêncio. E na adolescência esse objeto sai dos limites da casa paterna, dirigindo-se para os amigos, ou então para prováveis ídolos, como esportistas, cantores, etc. Se o adolescente vê aquela turma de jogadores animada, feliz, vai querer ser como eles. Passará a praticar esportes, cuidar da aparência, estar em jogos com eles, enfim, vai tentar ser como eles. O problema é que ele também pode pensar o mesmo em relação a um grupo que usa drogas: eles lhe parecem felizes, portanto passará a se comportar como eles. Por isso esse processo de mudança não deve ser deixado ao acaso.

 

E A TV?

 

Eu é que pergunto, então: e quando a criança fica à mercê da televisão durante o dia todo, enquanto os pais trabalham? E quando os pais não transmitem um modelo aceitável aos filhos? E quando o modelo mais provável é o professor, mas a escola tem alta rotatividade de mestres e nenhum efetivo e duradouro? Como fica a cabeça dessa criança? O que leva o aluno a dizer que seu sonho é ser traficante ou jogador de futebol? Parecem óbvias as respostas, diante das explicações de Gaudêncio, mas por que nossos governantes não se preocupam efetivamente com isso?

Nem questiono aqui o quanto “formam” ou “deformam” a criança algumas doutrinas religiosas... Basta ver como o brasileiro em geral é supersticioso e cheio de contradições... Acende uma vela a Deus e outra ao Diabo, mas não tem absoluta certeza da existência de nenhum dos dois!

Nossos pontos de referência, enquanto cidadãos, também são problemáticos. Quem escolheria como “objeto afetivo” algum de nossos políticos? E como ficam as crianças abusadas pelos pedófilos a quem antes admiravam como autoridade máxima de uma instituição qualquer? Se meus questionamentos não forem absurdos, creio que nosso país precisa de terapia geral...

Pois bem, esta é uma pequena amostra do que provoca a primeira parte dessa obra de Paulo Gaudêncio, imprescindível a uma compreensão melhor das crises desencadeadas pela necessidade de mudanças.

 

MESA- REDONDA COM GAUDÊNCIO

 

Sexta-feira, 13 de agosto. Data interessante para se testar mitos, superstições e tabus. Mas será também o dia em que teremos o Dr. Paulo Gaudêncio participando de uma mesa-redonda no Mercado Cultural, às 19h30. Aguardamos a sua presença, leitor!

 

Maria O. G. R. Arruda
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